Foi mágico. Vê-lo novamente, e sentir que ele estava sim, um tanto quanto triste. Com saudade. Me abraçou, senti a mesma coisa coisa, ou talvez mais forte, do que todas as vezes que eu o abraço. Senti como se ali, naquele abraço, naquele gesto singelo, nada de mal pudesse me acontecer. Nada, enquanto eu estava ali, nos braços dele, fosse me atingir. É estranho, é algo único, implacável. Eu sei o que eu sou pra ele. Sei também, embora queira esquecer, o que ele é pra mim., e isso é o que torna as coisas mais complicadas do que deveriam ser. Ele me olhava, sentia sinceridade, amor, carinho, angustia, naqueles olhos aflitos num corpo com alma infantil. Vivi cada momento ao lado dele, naquela terça feira, como se não tivéssemos tido uma história antes. Como se fôssemos amigos, bons amigos. Não vou falar, como se parecesse clichê, que ele me fazia sofrer. Não! Eu sofri porque quis sofrer. Ninguém, além de mim, tinha a responsabilidade de parar na hora que tinha que parar. Eu sabia desde o início que tudo podia dar errado. Que tudo podia não acontecer da forma que eu queria.
Cabeça teimosa, coração mais ainda.
Passaram-se 4 dias, e em 4 dias muitas coisas mudaram. Permiti que mudassem. Deixei a vida falar por si só, por me jogar, por arriscar, por não ter a palavra 'medo' uma vez se quer no meu vocabulário. Concedi a uma pessoa, não a missão, mas a chance de me fazer feliz. A missão de eu ser feliz, é minha. Independente dos outros. Decidi que se eu não der uma chance a quem queira realmente me 'ter' na sua vida, eu não saberia nunca como teria sido, se daria certo..
Pois bem, sábado. Ele apareceu, assim como nos filmes, de surpresa na minha casa, por volta das 14:00. Estava pronta para durmir. Ouvi a batida na porta, e disse para entrar. Meu coração palpitou, minhas mãos suaram frio. Como se ali, naquele momento, eu gostaria que houvesse uma passagem secreta ou algo do tipo debaixo do meu edredom. Como se eu quisesse fugir. Não dele. Fugir do que poderia ser evitado: mais uma lágrima. E foram milhares delas quando ele olhou pra mim, e pediu pra que não saísse da vida dele, que a mesma, só teria sentido comigo ao seu lado. Ouvir isso de alguém, já coloca uma responsabilidade dentro do nosso coração. Como se nós não estivermos por perto, a vida daquela pessoa não fará sentido algum. No momento, eu só consegui chorar. Não consegui dizer a ele, uma palavra que o comovesse, acho que o meu olhar dizia tudo, e como ele, mais do que ninguém, sabe interpretar o meu olhar, eu fui compreendida. Só queria hoje, não existir. Só queria que tudo se resolvesse, que tudo acontecesse da maneira que em sonho, eu imagino. Queria, por um momento, ser forte. Queria que as coisas ruins fossem embora.
Sempre que coisas ruins acontecem, uma série de questionamentos é gerada. Procuramos entender o porquê dos acontecimentos, mas nem sempre temos respostas.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.
A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.
A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Me acostumei com ele, me acostumei com a companhia dele. E como de costume, não disse naquele sábado, que eu o amava... Mas ele sabe, eu sei que ele sabe.
Chorar, arrepiar, sorrir, gargalhar, sentir, calafrio, tremedeira e amar muito mais!!
ResponderExcluirela entende!!