domingo, 17 de abril de 2011

trilhos de uma vida sem freio.


E as luzes da cidade me guiam para um lugar desconhecido. Queria eu ir para um lugar onde pessoas e animais e casas e ruas e postes fossem novos pra mim... E sentimentos e atitudes e pensamentos e clarão e escuridão e todos os versos e verbos fizessem algum sentido. Me encontro como se numa estação, sentada, no banco, rodeada de malas. Observo as pessoas à minha volta, tentando imaginar e adivinhar o que elas pensam, pra onde elas vão. Quem são essas pessoas com pressa, com sorriso no lábio, com olhos cansados, com seriedade no rosto... Quem são?
E vem gente, e vai gente, e trem chega, e trem vai e o relógio anuncia que a hora passa, que o tempo corre. Pessoas correm.
Coloco o fone de ouvido, e ao invés de barulho de trilho, conversações, máquina de café e barulho de senha no pão de queijo, fico ao som dos 'tons' do meu eterno Jobim. E enquanto observo cada gesto, cada movimento, com a bochecha apoiada na mão esquerda e os olhos procurando coisas que me despertem o interesse, me pego a pensar na minha vida. Começo a me ver um pouco em cada pessoa que ali, por mim, passa. As idéias fluíam na minha mente como folhas de árvores caindo num dia de outono; Um turbilhão de idéias...Problemas familiares, contas, boleto da faculdade, desilusão...A lista era grande, difícil priorizar.
E vejo que minha vida precisa de coisas novas. Precisa de um rumo novo. Precisa de um rumo. No anseio de tentar deixar pedaços da vida para trás, abri meus olhos; minha vida estava por um fio. Deitei no exato momento em que retomei a consciência, percebendo que só restava uma cama de conformismos. Senti prazer diante do aconchego oferecido. Desmaiei banhado em meu próprio pranto, desconhecendo o verdadeiro motivo.
Acordei longe de tudo, observando a imponente aurora que apressada tomava seu lugar, expulsando o insolente e desagradável crepúsculo que anteriormente entrara em cena. Ainda deitada percebi que não havia mais conforto em meu leito. O conformismo cedera seu lugar à revolta; a indiferença tomou outro rumo.
Prontamente coloquei-me em pé, tentando livrar o meu corpo dos espinhos que paulatinamente o penetravam. Observei o límpido céu por minutos que mais pareceram horas. O horizonte era perfeito, natural. Minh’alma esvoaçava com a gélida brisa da manhã. Meus cabelos indicavam a direção do vento que arrancava mais lágrimas de meus olhos.
O pranto cansado ainda não dava sinais do seu fim. A imensa revolta assustava, tornando imperceptível o ultimo pedaço de razão que ali restava. Virei meus olhos percebendo então que ainda havia um corpo no chão. Talvez um estranho, talvez meu próprio corpo; provavelmente um engano.
Quis perder a ilusão do momento. Tentava chegar perto da matéria, porém a brisa aconchegante, num instante, passou a ser tempestade. Tudo ficava distante, disperso. Entre incontáveis sentimentos desconhecidos, tive medo. Temi cada momento, exalando toda fraqueza que anteriormente escondia a todo custo. Desejei um derradeiro suspiro, percebendo que não tão cedo o teria. Fui brinquedo dos deuses. Objeto de uma piada divina. Motivo do incansável riso dos habitantes dos céus.
 O mundo que girava sob meu corpo era distinto do que habitava minh’alma, que o observava desconsiderando a ideia de voltar a seu antigo lar. Tudo estava fora de foco. A confusão que se fazia presente transcendia o grau de normalidade e de estranheza ao mesmo tempo. Os fatores que influenciavam os diversos sentimentos se alteravam constantemente, implicando numa inconstância do humor consciente, que de forma involuntária expressava exatamente o contrário do que se queria expelir.
 O primeiro passo me fez sentir desejo. Desejo de seguir, de descobrir o que a vida ali era capaz de proporcionar. Ignorei tudo que estava à volta. O segundo passo rapidamente tomou a frente do primeiro. O horizonte bonito já não era imenso. A proporção deixava de proporcionar bons ânimos como anteriormente. O racional ainda tomava conta, mas sem a menor contundência.
O terceiro passo foi monótono e automático, quase que instintivo. A ansiedade fazia com que eu andasse rápido, sem pensar. Eu ainda me sentia um desbravador daquele universo de possibilidades que eu via ao alcance.
Decidi abraçar a causa.
 Começo a me colocar no lugar e não mais a quem assiste sentada no banco da estação à reação de milhares e milhares de pessoas. De feitas e desfeitas, de idas e vindas, decido que minha vida a partir daquele momento, começaria a se movimentar. A seguir rumos, a arriscar-se a lugares desconhecidos. Aqueles nos quais já disse. E pois bem, serei eu a maquinista e minha vida será o trem. De estações, ah... um dia, quem sabe, paro novamente; mas só pra descansar...

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